13 de junho de 2009

HISTÓRIA DOS JUDEUS NO BRASIL

A história dos judeus no Brasil constitui um caso único; pois de nenhum outro país se pode dizer que nele os judeus tenham vivido ao longo de toda a sua existência, contribuindo substancialmente para o seu desenvolvimento econômico e social.




De fato, desde o descobrimento do país - evento este do qual participaram, tendo inclusive ajudado nos seus preparativos - até a época presente, os judeus, quase sem intermitência, aberta ou disfarçadamente, estiveram integrados nos processos de formação da nacionalidade.

Isso não obstante, vale dizer, embora os judeus tenham representado continuamente uma parcela da sociedade, a sua história não acompanha simplesmente a do Brasil. Longe de um esperado paralelismo, o que se verifica é a existência de inúmeros desvios e meandros, os quais não raro atingem o grau de contraste.

À guisa de exemplo, mencione-se o período da ocupação holandesa, que, traduzindo um fracasso para o país, constituiu, entretanto, o ponto mais alto do desenvolvimento da coletividade judaica local, dando-se o inverso com a fase subseqúente, quando, após a expulsão dos invasores, sobreveio a decomposição, o êxodo e a dispersão dos judeus do Brasil.

Semelhantemente, as intensas perseguições religiosas da primeira metade do século XVIII, de parcos efeitos diretos sobre a população geral do país, tiveram influência específica marcante sobre a vida dos judeus brasileiros.

Finalmente, sob outro aspecto, a implantação do regime e disposições liberais no país, no início do século XIX, culminando com a proclamação da Independência, e que resultou tão favorável ao progresso geral do país, determinou porém a assimilação quase total dos judeus, efeito este que é de se considerar negativo do ponto de vista da preservação da comunidade judaica brasileira.

Por tais motivos, o estudo da história dos judeus no Brasil não pode ater-se às fases e aos marcos gerais da evolução política e social do país, senão orientar-se, ao revés, segundo os fatos e acontecimentos históricos que hajam repercutido especificamente nas condições de vida individual e sobretudo coletiva dos judeus.

De acordo com tal critério, impõe-se destacar as seguintes oito fases na história dos judeus no Brasil, de 1500 a 1900:

1
1500-1570 - FASE PACÍFICA DE CRESCENTE IMIGRAÇÃO
e de ampla integração dos judeus na vida econômica do país, compreendendo os três sub-períodos:
a) - Primeiras explorações (1501-1515);
b) - Primeira colonização (1515-1530);
c) - Colonização sistemática (1530-1570)

2
1570-1630 - FASE TUMULTUÁRIA
, caracterizada pelo surgimento de DISCRIMINAÇÕES ANTI-JUDAICAS.

3
1630-1654 -
Período de EXUBERANTE DESENVOLVIMENTO, sob o domínio holandês - verdadeiro APOGEU DA ORGANIZAÇÃO COLETIVA dos judeus do Brasil.

4
1654-1700 -
Período pós-holandês, FASE CRÍTICA na vida dos judeus brasileiros, compreendendo ÊXODO em massa, desagregação da comunidade, DISPERSÃO e final acomodação local.

5
1700-1770 -
Período das GRANDES PERSEGUIÇÕES promovidas pela Inquisição portuguesa.

6
1770-1824 -
Período de LIBERALIZAÇÃO progressiva, queda da imigração judaica e GRADUAL ASSIMILAÇÃO dos judeus.

7
1824-1855 -
Fase de ASSIMILAÇÃO PROFUNDA, subseqüente à cessação completa da imigração judaica homogênea e à igualização total entre judeus e cristãos perante a lei.

8
1855-1900 -
Período PRÉ-IMIGRATÓRIO MODERNO, caracterizado pelas primeiras levas de imigrantes judeus, oriundos, sucessivamente, da África do Norte, da Europa Ocidental, do Oriente Próximo e mesmo da Europa Oriental, precursores das correntes caudalosas que, nas primeiras décadas do século XX, vieram gerar e moldar a atual coletividade israelita do país.

PRESENÇA JUDAICA NA LÍNGUA PORTUGUESA

Jane Bichmacher de Glasman (UERJ)

O objetivo do presente trabalho é apresentar alguns exemplos de influência judaica na língua portuguesa, a partir de uma ampla pesquisa sócio-lingüística que venho desenvolvendo há anos. A opção por judaica (e não hebraica) deve-se a uma perspectiva filológica e histórica mais abrangente, englobando dialetos e idiomas judaicos, como o ladino (judeu-espanhol) e o iídiche (alemão), entre os mais conhecidos, além de vocábulos judaicos e expressões hebraicas que passaram a integrar o vernáculo a partir de subterfúgios e/ ou corruptelas, cuja origem remonta à bagagem cultural de colonizadores judeus, cristãos-novos e marranos.


DIZERES: ANO NOVO EM JERUSALÉM!!





Há uma significativa probabilidade estatística de brasileiros descendentes de ibéricos, principalmente portugueses, terem alguma ancestralidade judaica. A base histórica para tal é a imigração maciça de judeus expulsos da Espanha, em 1492, para Portugal, devido à contigüidade geográfica e às promessas (não cumpridas) do Rei D. Manuel I, que traziam esperança de sua sobrevivência judaica como tal. Mesmo com a expulsão de Portugal em 1497, os judeus (além dos cristãos-novos e dos cripto-judeus ou marranos) chegaram a constituir 20 a 25% da população local.

Sefaradim (de Sefarad, Espanha, da Península Ibérica) procuraram refúgio em países próximos no Mediterrâneo, norte da África, Holanda e nas recém-descobertas terras de além-mar nas Américas, procurando escapar da Inquisição. Até hoje é controversa a origem judaica ou criptojudaica de descobridores e colonizadores do Brasil, para onde imigraram incontáveis cristãos-novos, alternando durante séculos uma vida como judeus assumidos e marranos, praticando o judaísmo secretamente (fora os que permaneceram efetivamente católicos), de acordo com os ventos políticos, sob o domínio holandês ou a atuação da Inquisição, variando de um clima de maior tolerância e liberdade à total intolerância e repressão.

Comparando apenas sob o ponto de vista cronológico, nem sempre lembramos que, enquanto o Holocausto na Segunda Guerra Mundial foi tão devastador, especialmente nos quatro anos de extermínio maciço de judeus, a Inquisição durou séculos, pelo menos três dos cinco da história “oficial” do Brasil, isto é, após o descobrimento. Tantos séculos de medo, denúncias, processos e mortes, geraram, por um lado, um ambiente psicológico de terror para os judeus e cristãos novos no Brasil; por outro, um anti-semitismo evidente ou subliminar que permaneceu arraigado na população, inclusive como autodefesa e proteção.

Uma característica do comportamento de cristãos-novos “suspeitos” foi procurar ser “mais católicos do que os católicos”, buscando sobreviver à intolerância e determinando práticas sócio-culturais e lingüísticas.

A citada alternância entre vidas assumidamente judaicas e marranas, praticando judaísmo em segredo, com costumes variados, unificados pela “camuflagem” de seu teor judaico, gerou comportamentos e aspectos culturais (abrangendo rituais, superstições, ditados populares, etc.) que se arraigaram à cultura nacional. A maioria da população desconhece que muitos costumes e dizeres que fazem parte da cultura brasileira têm sua origem em práticas criptojudaicas. Apresentarei alguns exemplos bem como suas origens e explicações, a partir da origem judaica “marrana”.

“Gente da nação” é uma das denominações para designar marranos, judeus, cristãos-novos e cripto-judeus, embora existam diferenças entre termos e personagens.

Cristãos-novos foi denominação dada aos judeus que se converteram em massa na Península Ibérica nos séculos XIII e XIV; é preconceituosa devido à distinção feita entre os mesmos e os “cristãos-velhos”, concretizado nas leis espanholas discriminatórias de “Limpieza de Sangre” do século XV.

Criptojudeus eram os cristãos-novos que mantiveram secretamente seu judaísmo. Gente da nação era a expressão mais utilizada pela Inquisição e Marranos, como ficaram mais conhecidos. Embora todos fossem descendentes de judeus, só poucos voltaram a sê-lo, e em países e épocas que o permitiram.

O próprio termo “marrano” possui uma etimologia diversificada e antitética. Unterman (1992: 166), conceitua de forma tradicional, como “nome em espanhol para judeus convertidos ao cristianismo que se mantiveram secretamente ligados ao judaísmo. A palavra tem conotação pejorativa” geralmente aplicada a todos os cripto-judeus, particularmente aos de origem ibérica. Em 1391 houve uma maciça conversão forçada de judeus espanhóis, mas a maioria dos convertidos conservou sua fé. Já Cordeiro (1994), com base nas pesquisas de Maeso (1977), afirma que a tradução por “porco” em espanhol tornou-se secundária diante das várias interpretações existentes na histografia do marranismo.

Para o historiador Cecil Roth (1967), marrano, velho termo espanhol que data do início da Idade Média que significa porco, aplicado aos recém-convertidos (a princípio ironicamente devido à aversão judaica à carne de porco), tornou-se um termo geral de repúdio que no século XVI se estendeu e passou a todas as línguas da Europa ocidental.

A designação expressa a profundidade do ódio que o espanhol comum sentia pelos conversos com quem conviviam. Seu uso constante e cotidiano carregado de preconceito turvou o significado original do vocábulo. Em “Santa Inquisição: terror e linguagem”, Lipiner (1977) apresenta as definições: “Marranos: As derivações mais remotas e mais aceitáveis sugerem a origem hebraica ou aramaica do termo. Mumar: converso, apóstata. Da raiz hebraica mumar, acrescida do sufixo castelhano ano derivou a forma composta mumrrano, abreviado: Marrano. Tratar-se-ia, pois de um vocábulo hebraico acomodado às línguas ibéricas. Marit-áyin: aparência, ou seja, cristão apenas na aparência. Mar-anús: homem batizado à força. Mumar-anus: convertido à força. Contração dos dois termos hebraicos, mediante a eliminação da primeira sílaba”. Anus, em hebraico, significa forçado, violentado.

PALAVRA "VIDA" EM HEBRAICO:




Antes de exemplificar a contribuição lingüística marrana, convém ressaltar que a vinda dos portugueses para o Brasil trouxe consigo todos os empréstimos culturais e lingüísticos que já haviam sido incorporados ao cotidiano ibérico, desde uma época anterior à Inquisição, além de novos hábitos e características; muitas palavras e expressões de origem hebraica foram incorporadas ao léxico da língua portuguesa mesmo antes de os portugueses chegarem ao Brasil. Elas encontram-se tão arraigadas em nosso idioma que muitas vezes têm sua origem confundida como sendo árabe ou grega. Exemplo: a “azeite”, comumente atribuída uma origem árabe por se assemelhar a um grande número de palavras começadas por “al-” (como alface, alfarrábio, etc.), identificadas como sendo de origem árabe por esta partícula corresponder ao artigo nesta língua. O artigo definido hebraico é a partícula “a-” e “azeite” significa, literalmente, em hebraico “a azeitona” (ha-zait).

Apesar da presença judaica por tantos séculos, em Portugal como no Brasil, as perseguições resultaram também em exclusões vocabulares. A maior parte dos hebraísmos chegou ao português por influência da linguagem religiosa, particularmente da Igreja Católica, fazendo escala no grego e no latim eclesiásticos, quase sempre relacionados a conceitos religiosos, exemplos: aleluia, amém, bálsamo, cabala, éden, fariseu, hosana, jubileu, maná, messias, satanás, páscoa, querubim, rabino, sábado, serafim e muitos outros.

Algumas palavras adotaram outros significados, ainda que relacionados à idéia do texto bíblico. Exemplos: babel indicando bagunça; amém passando a qualquer concordância com desejos; aleluia usada como interjeição de alívio.

O preconceito marca palavras originárias do hebraico usadas de forma depreciativa, como: desmazelo (de mazal – negligência, desleixo), malsim (de mashlin – delator, traidor), zote (de zot / subterrâneo, inferior, parte de baixo – pateta, idiota, parvo, tolo), ou tacanho (de katan – que tem pequena estatura, acanhado; pequeno; estúpido, avarento); além de palavras relacionadas a questões financeiras, como cacife, derivada de kessef = dinheiro.

Dezenas de nomes próprios têm origem hebraica bíblica, como: Adão, Abraão, Benjamim, Daniel, Davi, Débora, Elias, Ester, Gabriel, Hiram, Israel, Ismael, Isaque, Jacó, Jeremias, Jesus, João, Joaquim, José, Judite, Josué, Miguel, Natã, Rafael, Raquel, Marta, Maria, Rute, Salomão, Sara, Saul, Simão e tantos outros. Alguns destes, na verdade, são nomes aramaicos, oriundos da Mesopotâmia, como Abraão (Avraham), que se incorporaram ao léxico hebraico no início da formação do povo hebreu.

Podemos citar centenas de nomes e sobrenomes de judaizantes e números de seus dossiês, desde a instalação da Inquisição no Brasil, a partir dos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, e de livros como Wiznitzer (1966), Carvalho (1982), Falbel (1977), Novinsky (1983), Dines (1990), Cordeiro (1994), etc. Sobrenomes muito comuns, tanto no Brasil como em Portugal, podem ser atribuídos a uma origem sefardita, já que uma das características marcantes das conversões forçadas era a adoção de um novo nome. Muitos conversos adotaram nomes de plantas, animais, profissões, objetos, etc., e estes podem ser encontrados em famílias brasileiras, até hoje, em número tão grande que seria difícil enumerá-los. Exemplos: Alves, Carvalho, Duarte, Fernandes, Gonçalves, Lima, Silva, Silveira, Machado, Paiva, Miranda, Rocha, Santos, etc. Não devemos excluir a possibilidade da existência de outros sobrenomes portugueses de origem judaica.

Porém é importante ressaltar que não se pode afirmar que todo brasileiro cujo sobrenome conste dos processos seja descendente direto de judeus portugueses; para se ter certeza é necessária uma pesquisa profunda da árvore genealógica das famílias.




Há ainda algumas palavras e expressões oriundas do misticismo judaico, tão desenvolvido na idade média. O estudo do Talmud e da Cabalá trouxe também contribuições do aramaico, como a conhecida expressão “abracadabra”, que é tida pela nossa cultura como uma “palavra mágica” (num sentido fabuloso), mas que, na realidade pode ser traduzida como “criarei à medida que falo” (num sentido real e sólido para a cultura judaica).

Algumas palavras também designam práticas judaicas ou formas de encobri-las, especialmente observável nos costumes alimentares. Por exemplo: os judeus são proibidos pela Torá de comer carne de porco, porque tem os cascos fendidos e não rumina, sendo, portanto, impuro. Para simular o abandono desse princípio e enganar espiões da Inquisição, os cristãos-novos inventaram as alheiras, embutidos à base de carne de vitelo, pato, galinha, peru – e nada de porco. Após algumas horas de defumação já podem ser consumidos. Da mesma forma, peixes “de couro” (sem escamas) não serviam para consumo.

Passando às expressões, apresento alguns exemplos, sua origem e explicação:

– “Ficar a ver navios” – Em 1492 foi determinado que os judeus que não se convertessem teriam de deixar a Espanha até ao fim de julho. Centenas de milhares então se fixaram em Portugal. O casamento do rei D. Manuel com D. Isabel, filha dos Reis Católicos, levou-o a aceitar a exigência espanhola de expulsar todos os judeus residentes em Portugal que não se convertessem ao catolicismo, num prazo que ia de Janeiro a Outubro de 1497. O rei Dom Manuel precisava dos judeus portugueses, pois eram toda a classe média e toda a mão-de-obra, além da influência intelectual. Se Portugal os expulsasse logo como fez a Espanha, o país passaria por uma crise terrível. Na realidade D. Manuel não tinha qualquer interesse em expulsar esta comunidade, que então constituía um destacado elemento de progresso nos setores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os judeus no país, os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturação. Para obter os seus fins lançou mão de medidas extremamente drásticas, como ter ordenado que os filhos menores de 14 anos fossem tirados aos pais a fim de serem convertidos. Então fingiu marcar uma data de expulsão na Páscoa. Quando chegou a data do embarque dos que se recusavam a aceitar o catolicismo, alegou que não havia navios suficientes para os levar e determinou um batismo em massa dos que se tinham concentrado em Lisboa à espera de transporte para outros países. No dia marcado, estavam todos os judeus no porto esperando os navios que não vieram. Todos foram convertidos e batizados à força, em pé. Daí a expressão: “ficaram a ver navios”. O rei então declarou: não há mais judeus em Portugal, são todos cristãos (cristãos-novos). Muitos foram arrastados até a pia batismal pelas barbas ou pelos cabelos.

– “Pensar na morte da bezerra”: frase tão comumente dita por sertanejos quando querem referir-se a alguém que está meditando com ares de preocupação: “está pensando na morte da bezerra”. Registram as denunciações e as confissões feitas ao Santo Oficio, a noção popular, naquele distante período, do que seria o livro fundamental do judaísmo: a Torá. De Torá veio Toura e depois, bezerra, havendo inclusive quem afirmasse ter visto em cara de alguns cristãos-novos, o citado objeto, com chifres e tudo.

– “Passar a mão na cabeça”, com o sentido de perdoar ou acobertar erro cometido por algum protegido, é memória da maneira judaica de abençoar de cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto pronunciava a bênção.

– Seridó, região no Rio Grande do Norte, tem seu nome originário da forma hebraica contraída: Refúgio dele. Porém, não é o que escreve Luís da Câmara Cascudo, indicando uma origem indígena do nome da região, de “ceri-toh”. Em hebraico, a palavra Sarid significa sobrevivente. Acrescentando-se o sufixo ó, temos a tradução sobrevivente dele. A variação Serid, “o que escapou”, pode ser traduzido também por refúgio. Desse modo, a tradução para o nome seridó seria refúgio dele ou seus sobreviventes.

– Passar mel na boca: quando da circuncisão, o rabino passa mel na boca da criança para evitar o choro. Daí a origem da expressão: “Passar mel na boca de fulano”.

– Para o santo: o hábito sertanejo de, antes de beber, derramar uma parte do cálice, tem raízes no rito hebraico milenar de reservar, na festa de Pessach (Páscoa), um copo de vinho para o profeta Elias (representando o Messias que virá, anunciado pelo Profeta Elias).

– “Que massada!” –usada para se referir a uma tragédia ou contra-tempo, é uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto de Zelotes, onde permaneceram anos resistindo às forças romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio coletivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo.

– “Pagar siza” significando pagar imposto vem do hebraico e do aramaico (mas = imposto, em hebraico de misa, em aramaico).

– “Vestir a carapuça” ou “a carapuça serve para ...” vem da Idade Média inquisitorial, quando judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos (ou com três pontas) para serem identificados.

– “Fazer mesuras” origina-se na reverência à Mezuzá (pergaminho com versículos de DT.6, 4-9 e 11,13-21, afixado, dentro de caixas variadas, no batente direito das portas).

– "Deus te crie" após o espirro de alguém é uma herança judaica da frase Hayim Tovim, que pode ser traduzido como tenha uma boa vida.

– “Pedir a bênção” aos pais, ao sair e chegar em casa, é prática judaica que remonta à benção sacerdotal bíblica, com a qual pais abençoam os filhos, como no Shabat e no Ano Novo.

– “Entrar e sair pela mesma porta traz felicidade” bem como o costume de varrer a casa da porta para dentro, costume arraigado até os dias de hoje, para “não jogar a sorte fora” é uma camuflagem do respeito pela Mezuzá, afixada nos portais de entrada, bem como aos dias de faxina obrigatória religiosa judaica, como antes do Shabat (Sábado, dia santo de descanso semanal) e de Pessach.

– “Apontar estrelas faz crescer verrugas nos dedos” era a superstição que se contava às crianças para não serem vistas contando estrelas em público e denunciadas à Inquisição, pois o dia judaico começa no anoitecer do dia anterior, ao despontar das primeiras estrelas, dado necessário para identificar o início do Shabat e dos feriados judaicos.

Para concluir, gostaria de mencionar um tema polêmico decorrente deste intercâmbio cultural-religioso: sua influência no português, em vocábulos que adquiriram uma conotação pejorativa e negativa. Os mais discutidos são: judeu, significando usurário, o verbo judiar (e o substantivo judiação) com o sentido de maltratar, torturar, atormentar. Seja sua origem a prática de “judaizar” (cristãos-novos mantendo judaísmo em segredo e/ ou divulgando-o a outros), seja como referência ao maltrato e às perseguições sofridas pelos judeus durante a Inquisição, o fato é que, sem dúvidas, sua conotação é negativa, e cabe a nós estudiosos do assunto e vítimas do preconceito, esclarecer a população e a mídia, alertando e visando à erradicação deste uso, não só pelo desgastado “politicamente correto”, que leva a certos exageros, mas para uma conscientização do eco subliminar de um longo passado recente, Pelo qual não basta o pedido de perdão, se não conduzir a uma mudança no comportamento social.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Flávio Mendes de. Raízes judaicas no Brasil. São Paulo: Arcádia, 1982.

CORDEIRO, Hélio Daniel. Os marranos e a diáspora sefaradita. São Paulo: Israel, 1994.

DINES, Alberto. Vínculos do fogo. São Paulo: Cia. das Letras. 1990.

FALBEL, Nachman & GUINSBURG, Jacó. (org.) Os marranos. São Paulo: CEJ; USP, 1977.

GONSALVES DE MELLO, José Antonio. Gente da Nação In: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. 1979.

HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LIPINER, Elias. Santa inquisição: Terror e linguagem. Rio de Janeiro. Documentário, 1977.

MAESO, David Gonzalo. A respeito da etimologia do vocábulo ‘marrano’. São Paulo, CEJ, 1977.

NOVINSKY, Anita. A inquisição. São Paulo: Brasiliense, 1983.

ROTH, Cecil (ed.) Enciclopédia judaica. Rio de Janeiro. Tradição, 1967.

UNTERMAN, Alan. Dicionário judaico de lendas e tradições. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

WIZNITZER, Arnold. Os judeus no Brasil Colonial. São Paulo: Pioneira, 1966.

LIVRO: HISTÓRIA DOS JUDEUS EM PORTUGAL

História dos Judeus em Portugal - Introdução e notas de Anita Novinsky

Autor(es): Meyer Kayserling

Editora: Perspectiva

Área(s): Temas judaicos, História

ISBN: 9788527308359

448 pág.




Descrição:


Em meados do século XIX, quando os arquivos do Santo Ofício da Inquisição em Portugal ainda permaneciam secretos, e Alexandre Herculano apenas iniciava a desmascarar as “negociatas” do monarca, D. João III, com o Vaticano, um rabino alemão se lançou numa aventura surpreendente: devastar a história dos judeus em Portugal, desde a formação da monarquia portuguesa até o século XIX. Esta obra permanece até hoje o mais fiel retrato de uma longa trajetória dos judeus sefaradim, da tolerância à catástrofe final, que foi a sua conversão forçada à religião cristã.

Os conhecimentos que Meyer Kayserling revela sobre o funcionamento do Tribunal do “Santo” Ofício da Inquisição, sobre o drama vivido pelos convertidos, as “manobras” financeiras dos monarcas portugueses com o Papa e com os mercadores e homens de negócios, sobre o êxodo e as peregrinações dos judeus, sem solo, sem pátria, sem identidade, e o silêncio do mundo ante os festivos autos-de-fé, onde a população eufórica ia assistir a destruição de vidas indefesas, vêm descritos com um raro conhecimento bibliográfico e sensível erudição.

Esta segunda edição da obra de Meyer Kayserling sai ampliada de notas, ilustrações e de uma bibliografia atualizada.

Tradução Gabriele Borchardt Corrêa da Silva e Anita Waingort Novinsky

CANTORES ISRAELENSES HAREL SKAAT E MAYA BUSKILA


12 de junho de 2009

AM EHAD (UM POVO) - VÁRIOS CANTORES ISRAELENSES


Liel Kolet - "Elohim Sheli" (Meu Deus)



Elohim sheli, ratziti sheted'a
Chalom shechalamti halayila bamitah.
Ubachalom ra iti mal'ach
Mimtzulot hayam alah, ve amar li kach:
Bati min hamayim, mimtzulot hayam,
laset birkat shalom leyalde i kol ha olam,
laset birkat shalom leyalde i kol ha olam".


Ukshe itorarti nizkarti bachalom
ve yatzati lechapes me at shalom
velo haya mal ach, velo haya shalom.
Hu et hab sorah lakach ve ani im hachalom.

3 de junho de 2009

Os judeus secretos do Sudoeste Norte-Americano

Por Amy Klein 18 de maio de 2009
Publicado pela Agência JTA


El Paso, Texas (JTA) - Três coisas estranhas aconteceram ao rabino Stephen Leon na primeira semana que ele mudou-se para cá em 1986 para liderar a Congregação B'nai Zion, uma sinagoga Conservadora nesta cidade fronteiriça.

"Rabino", disse um homem católico ligando de Jaurez, México, distante cerca de 30 minutos. "Eu preciso falar com você."




Toda sexta-feira à noite, desde que ele era pequeno, sua avó levava-o a um quarto, acendia velas e dizia algumas orações em um idioma particular que ele não entendia. Sua avó havia acabado de morrer e, então, ele perguntou à mãe se ela iria continuar a tradição. Ela disse-lhe para ir encontrar um rabino.

Três dias depois, uma mulher católica de El Paso chegou ao rabino após visitar um parente em luto, quando notou que todos os espelhos estavam cobertos.

"Por que vocês estão fazendo isso?", Ela perguntou aos familiares.

Disseram-lhe que era um costume judeu.

Então, o instalador de TV a cabo, o rabino disse-lhe “Shalom Y'all." O homem - um católico hispânico - abriu sua camisa e mostrou-lhe seu cordão com uma estrela - ele tinha acabado de descobrir suas raízes judaicas.

"Três incidentes em uma semana e meia?" Leon recordou. "Alguma coisa está acontecendo."

Vinte e dois anos mais tarde, algo ainda está em curso: um constante surgimento de hispânicos na região sudoeste, desde de Juarez ao Texas para o Novo México, estão descobrindo suas raízes judaicas.

Alguns são atraídos em sua busca por uma misteriosa tradição praticada por um parente mais velho, como não comer carne de porco ou trabalhar no sábado. Para outros, a pista é um artefato como um pião diferente que se assemelha um dreidel, ou um tipo de Tefillin que uma avó católica em uma viagem, uma vez insistiu em deixar com um rabino.

Mas para a maioria das pessoas, é algo muito ténue: uma palavra aqui (bubbe, tzedakah), um nome judeu lá (Rael, de Israel). Muitas vezes, é só um sentimento sobre o Catolicismo, Jesus, o seu passado ou o que eles dizem é sua alma que leva as pessoas saber se sua família era judia.

Cripto-judeus. Marranos. Anusim. Judeus. Conversos. Eles são todos termos com diferentes matizes referentes aos judeus e/ou seus descendentes que foram forçados a converter-se depois que Espanha e Portugal expulsaram todos os não-católicos, mas que continuaram a praticar o judaísmo ou manter alguns costumes judaicos e seus filhos migraram para a América Latina , Europa e, finalmente, os Estados Unidos.

Alguns crypto-judeus estão interessados no conhecimento genealógico, mas não estão planejando deixar o Catolicismo, outros práticam uma mescla de Judaísmo Messiânico e fé em Jesus. Poucos deles abdicam da sua fé católica e convertem-se - eles preferem a palavra "regresso" para o Judaísmo.

"Quem você considera?" Perguntou Stanley Hordes, um dos principais especialistas sobre o cripto-judeus e autor do livro "Para o Fim da Terra: Uma História da crypto-judeus do Novo México" (Columbia University Press, 2008).

"As possibilidades são realmente boas de que muitas pessoas têm antepassados judaicos voltando 500 anos", disse ele, estimando que, após metade da centena de milhares de judeus abandonaram a Espanha, metade converteu-se ao Catolicismo - metade desses judeus convertidos assimilaram-se naturalmente à sociedade católica.

"Entretanto, algumas famílias mantiveram a fé ancestral judaica e continuaram a prática", disse ele. "Hoje, a esmagadora maioria está perfeitamente confortável em seu catolicismo e protestantismo. Em apenas um punhado de casos, as pessoas estão explorando uma relação com o Judaísmo tradicional".

Este Shavuot, quando judeus de todo o mundo comemoram o recebimento da Torá no Monte Sinai e lêem o Livro de Ruth - a história da pessoa mais famosa do mundo a converter-se ao judaísmo - alguns destes Crypto-judaica repatriados comemoraram bar e bat mitzvah com Leon na Congregação B'nai Zion, uma sinagoga com 400 famílias.

Dez por cento dos membros são crypto-judeus, mas "sem meus anusins não posso ter uma minyan", disse Leon.

Ele não está brincando. Em um sábado de manhã quente, em Maio, no imponente edifício angular branco da B'nai Zion localizado próximo à serra que divide El Paso, cerca de 30 das 50 pessoas sentadas no santuário circular decorado com uma estrela judaica são Crypto-judeus. (O santuário maior é usado nos feriados especiais para acomodar os 1.500 membros.)

Um deles é Blanca Carrasco, 43 anos, que retornou ao Judaísmo no ano passado e está prestes a comemorar seu Bat Mitzvah no Shavuot, que este ano começou na noite de 28 de maio.

O rabino caminha com a Torá ao redor do santuário para ser beijada e a congregação canta "ETZ chayim chai, l'amachazikim bah" ( "Uma árvore da vida para todos aqueles que se apegam a Ele ...") e Carrasco-se em lágrimas recita o último versículo: "Hashiveinu Hachem elecha v'nashuva" - "Voltar-nos para ti, meu Deus, e vamos voltar."

O retorno de Carrasco ao judaísmo começou quando ainda era uma criança curiosa católica no México, onde ela era fascinada sobre tudo na Bíblia. Aos 20 anos de idade, ela tornou-se evangélica, mas ainda faltava algo na doutrina para ela e seu marido, Cezar, que considerava-se mais um ateu. Há cerca de 14 anos atrás, sua mãe convidou-a para uma “Páscoa Seder” em uma congregação messiânica em El Paso.

"Sentimos que era familiar – Senti-me em casa", disse Blanca Carrasco.

"A partir daí, a nossa vida mudou", acrescentou. "Eu precisava saber mais."

Assim como uma série de crypto-judeus, que já freqüentam a B'nai Zion, os Carrascos começaram sua transformação religiosa orando no Centro Messiânico, em El Paso, onde aprenderam sobre o Judaísmo, importante rabinos, os festivais e história judaica, e crypto-judeus . Ela encontrou alguns nomes de família - Espinoza, de Israel, Salinas - e uma tia sua disse-lhe que a avó falava Ladino.

Eventualmente, Carrasco começou a pensar apenas na tradição judaica, e três anos atrás ela decidiu deixar a congregação messianica após uma década lá.

"Como posso explicar o que está no meu coração?" Disse ela. "As pessoas nos dizem, 'Você não tem que fazer isso', mas a gente só ama isso, quero aprender e quero fazer isso."

Um ano atrás, um jovem passou por uma "cerimônia de regresso", que é tecnicamente uma conversão,na qual é emitido um certificado de conversão e exige pelo menos um ano de estudo, imersão no mikvah e uma declaração de fé.

Para os Carrascos, sua cerimônia de B'nai Mitzvah no Shavuot é apenas mais um rito de passagem, em sua viagem para o Judaísmo.

"Agora nós pertencemos - nós não temos mais saudade, estamos aqui", disse Blanca Carrasco. "Chegamos ao local que procurávamos".

Fale com cerca de 50 famílias anusins que Leon retornou ao judaísmo - alguns dos quais foram B'nai Mitzvah durante o Shavuot - e você ouvirá uma história semelhante.

Margarita Luna lembra que a avó sempre acendia velas na sexta-feira à noite antes de dizer o Rosário. Mas sua mãe não queria falar sobre isso - talvez porque durante a guerra mexicana na década de 1920, eles tiveram que esconder-se em um poço durante alguns dias. "Sempre no meu coração eu sintia que amava as tradições judaicas", diz ela, dedilhando a mezuzah em seu colar. "Eu sempre dizia que era judia e que precisava retornar às minhas raízes."

Ela e seu marido, Victor, convertido cinco anos atrás, e após a sua B'nai Mitzvah em Shavuot, planejam casar-se em uma cerimônia judaica e, esperam um dia, mudarem-se para Israel com sua filha adolescente.

Encontrar provas históricas é importantes para eles?

"Não é um factor determinante para a minha relação com Deus", disse Victor. "Eu acho que o meu coração, meus sentimentos, minha alma é judia. Isso é mais importante.

Para Leon, que liderou uma congregação em New Jersey por 22 anos antes de vir para El Paso, esta tornou-se sua missão.

"Deus me disse, 'Eu não posso trazer de volta os 6 milhões que foram mortos no Holocausto, mas houve um outro grupo antes que está vivo em números muito maiores do que os sobreviventes do Holocausto porque isso foi há 500 anos, geração após geração, após geração", ele disse. "Suas almas estão vivas. ... Você tem que fazer algo sobre isso. "

Entretanto, nem todos concordam com esta missão. O Rabino Yisrael Greenberg do Chabad de El Paso diz ele recebe a sua quota de chamadas telefónicas de mexicanos que acham que têm raízes judaicas, mas desencoraja a conversão.

"Acho que o cripto-judeu é uma coisa real - há 500 anos, durante a Inquisição centenas de milhares de meninos e meninas judias desapareceram da comunidade judaica ... judeus sempre desapareceram da comunidade judaica - a maior parte pela força", disse Greenberg.

Mas, acrescentou, referindo-se ao forte vínculo religioso mexicano de famílias e na comunidade, "Temos de ter cuidado – em não separar famílias".

"Devemos colocar a nossa energia para o povo judeu e não para tentar trazer de volta o anusim", disse Greenberg. "Se o anusim têm um desejo de compreender o Judaísmo, então vamos ensiná-los sobre os seus antepassados e deixá-los ter um entendimento", acrescentou, o que implica que a melhor coisa a fazer seria deixar as coisas como estão.

Esta abordagem seria ideal para Elay Romero, um torneiro mecânico aposentado, que percorreu a linhagem da sua família através de registros e considera submeter-se a alguns testes de DNA. Ele descobriu o livro sobre crypto-judeus de Stanley Hordes e viajou para Taos, NM, ao saber que o historiador falaria sobre o tema na Sociedade Histórica Judaica do Novo México.

"Estou apenas curioso", disse Romero. "Se eu tiver sangue judeu, está bem. Mas somos católicos praticantes por gerações, e não vou mudar minha afiliação com a Igreja. "

O rabino, entretanto, tem grandes planos. Além de receber crypto-judeus, ele ajudou na criação de um centro de aprendizagem anusim / sefarditas e yeshiva em El Paso com Juan Pablo Mejia, um graduado do Programa Rabínico do Seminário Teológico Judaico da América, e Sonya Loya, diretora do Bat - Tzyion Hebraico Learning Center em Ruidoso, NM O objetivo seria o de trazer para a consciência judaica e público em geral informações sobre a Inquisição e crypto-judeus além de manter a memória do Holocausto.

"O anusim voltará eventualmente, existe um anseio. Existe um plano divino lá fora ", disse Leon.

Com hispânicos apresentando o crescimento populacional mais rápido e os judeus constantemente preocupados com a diminuição de sua população, Leon diz que a comunidade judaica hispânica deve saudar aqueles que querem explorar sua ascendência judaica.

"Creio que o anusim são a única resposta", disse ele. "Eles estão voltando uma forma ou de outra."