29 de junho de 2013

VIDA JUDAICA EM PORTUGAL


Judeus, presença milenar na Península Ibérica. Já na década de 70, porém, alguns indícios mostravam o processo de mudança no país. Em 1974, após a Revolução dos Cravos, que substituiu o regime totalitário pela democracia, foram feitas modificações nos compêndios de história, trazendo novas abordagens sobre o período da Inquisição.
Foram necessários 500 anos para que Portugal tomasse a decisão de revogar publicamente o decreto de expulsão dos judeus, vigente quando o país vivia à sombra da Inquisição. Com a votação no Parlamento, em dezembro de 1996, abre-se um novo capítulo na história portuguesa.

Já na década de 70, porém, alguns indícios mostravam o processo de mudança no país. Em 1974, após a Revolução dos Cravos, que substituiu o regime totalitário pela democracia, foram feitas modificações nos compêndios de história, trazendo novas abordagens sobre o período da Inquisição. Em 1987, o então presidente Mário Soares apresentou ao Estado de Israel um pedido formal de desculpas, em nome do país, pelos eventos do passado. A Inquisição foi oficialmente abolida de Portugal em 1821.

Logo após a votação no Parlamento português, foi inaugurada a primeira sinagoga na cidade de Belmonte, onde durante séculos os judeus esconderam sua fé por trás da sua identidade de cristãos-novos ou marranos. Tal fato demonstra que, apesar do decreto e das perseguições, as páginas da história de Portugal, nos últimos cinco séculos, foram permeadas por costumes e tradições de origem judaica, mantidos, às escondidas, por indivíduos que geralmente sequer sabiam o seu real significado.
A Inquisição em Portugal sofreu influência direta da sua atuação na Espanha, onde, por insistência dos reis católicos espanhóis, Fernando e Isabel, o papa Sixtus IV apoiou a criação de uma Inquisição Espanhola Independente, em 1483, presidida por um Conselho e um inquisidor. Entre os mais famosos, está Tomás de Torquemada, um símbolo de crueldade, intolerância e fanatismo religioso, que ajudou a escrever um capítulo especial do Santo Ofício na Península Ibérica e em suas colônias, cujo alvo principal foram os judeus e, em seguida, os cristãos-novos, ou os judeus convertidos à força ao cristianismo.



Passados os séculos, a instituição e seus excessos têm sido motivo de embaraço para muitos cristãos. Durante o Iluminismo, a Inquisição chegou a ser citada como um dos maiores exemplos de barbárie durante a Idade Média. Mas em sua época, despertava a simpatia de muito setores, que a consideravam um instrumento político, econômico e necessário para a defesa das crenças religiosas.

Pesquisas históricas indicam que a presença judaica em Portugal remonta ao século VI antes da era cristã, sendo anterior à formação do reino de Portugal. No século XII, sob o comando de Afonso Henriques, Portugal torna-se uma nação e surgem as primeiras comunidades judaicas em Lisboa, Oporto (atual Porto), Santarém e Beja.

Durante o reinado de Afonso Henriques, os judeus vivem momentos de tranqüilidade e prosperidade, possuindo também um sistema comunitário autônomo no qual o grão-rabino era indicado pelo rei. Neste período, o grão-rabino Yahia Ben Yahia foi escolhido ministro das Finanças, sendo também responsável pela coleta de impostos no reino. A tradição implantada por Afonso Henriques, de escolher judeus para a área financeira e de manter um bom relacionamento com as comunidades judaicas, é seguida por seus sucessores.

No entanto, para os judeus, a era de prosperidade e de participação na vida política e econômica do reino termina no início do século XV, com o aparecimento de um anti-judaísmo local e com a influência cada vez maior da Inquisição espanhola. Por trás da deterioração da situação das comunidades judaicas estão as pressões da Igreja, o surgimento da burguesia e, por último, a aliança da Espanha com Portugal, fortalecida através do casamento de Manuel I com Isabel, filha dos reis católicos Fernando e Isabel. Como na Espanha, a prosperidade dos judeus despertou a inveja dos seus vizinhos, impondo-lhes, entre outras punições, maiores impostos.

Para a Igreja, a conversão dos judeus e o fim do judaísmo são as únicas maneiras de afirmar definitivamente a identidade messiânica de Jesus. Para a burguesia, o fim dos judeus significa a possibilidade de conquistar uma posição privilegiada na vida econômica da nação. Para os reis católicos, representa a extensão da Inquisição espanhola em solo português, perseguindo aqueles que conseguiram fugir do decreto de 1492, que determinou a expulsão de todos os judeus da Espanha.
Durante o reinado do rei João, pela primeira vez os judeus são obrigados a usar em suas roupas símbolos que indicam sua crença religiosa. Em 1435, sob o comando de Afonso V, o Rabino Isaac Abravanel, judeu, médico, talmudista e filósofo desempenha as funções de conselheiro e tesoureiro do rei. Ao mesmo tempo, é criada uma lei que proíbe os judeus de terem empregados cristãos.

A 30 de maio de 1492 é assinado o decreto que expulsa os judeus da Espanha, levando cerca de 80 mil a buscarem abrigo em Portugal, apesar das medidas restritivas que vêm sendo adotadas no país. Mesmo com a perseguição, Portugal ainda se apresenta como uma alternativa de salvação para os judeus.

Para acolhê-los, o rei João II exige o pagamento de uma taxa que lhes permite ficar no país apenas oito meses, prometendo-lhes que, ao final desse período, poderão partir em navios cedidos pelo governo. Além de não cumprir a promessa, são vendidos como escravos para a nobreza portuguesa. Neste mesmo período, cerca de 700 crianças judias foram separadas de suas famílias e enviadas para colonizar a ilha africana de St. Thomas, onde a maioria morreu.

O próximo passo dessa tendência de perseguição é dado a 5 de dezembro de 1496, quando Manuel I, sucessor de João II, e às vésperas do casamento com Isabel da Espanha, assina o decreto que prevê, em dez meses, a expulsão dos judeus de Portugal. A única alternativa para evitá-la seria a conversão ao cristianismo.



A maioria dos judeus, que fugira da Espanha justamente para evitar a conversão, decide então, sair de Portugal. O rei, no entanto, diante da possibilidade de evasão do capital financeiro do país, juntamente com a população judaica, publica um novo decreto, que proíbe a partida de Portugal e força os judeus a se converterem.

Segundo o relato de Cecil Roth, em seu livro "Uma História dos Marranos", crianças foram arrancadas do colo de seus pais e entregues a famílias cristãs, para viverem em locais muito distantes de seus familiares. Para alguns judeus era preferível a morte do que o batismo dos filhos.

Diante desses medidas, não restaram muitas opções aos judeus portugueses. Enquanto uma parcela das comunidades judaicas locais aceita seu destino e assume totalmente sua nova religião, outra segue os novos preceitos apenas aparentemente, mantendo secretamente seus rituais e tradições. São justamente os descendentes dessas gerações que hoje, 500 anos após o decreto de expulsão e a conversão forçada, começam gradativamente a buscar e a assumir sua herança judaica.





ENTIDADES JUDAICAS EM LISBOA:

Comunidade Israelita de Lisboa
Rua Alexandre Herculano 59
1250-010 Lisboa
Tel (+351) 21.385.86.04
Fax (+351) 21.388.43.04
E-mail: cilisboa@rshv.clix.pt
Site: http://www.geocities.com/lisnagog

Embaixada de Israel
Rua Antonio Enes 16
1000 Lisboa
Tel (+351)21.355.36.40
Tel (+351)21.355.36.58

Refeições Casher
Mrs Rebeca Assor
Rua Rodrigo da Fonseca 38, 1ºD
Tel (+351) 21.386.03.96
Fax (+351) 21-3866336
E-mail: iassor@netcabo.pt

Jewish Club & Center
Rua Rosa Araújo 10
Tel (+351) 21.385.86.04

Sinagoga Shaaré Tikvá
Rua Alexandre Herculano 59
1250-010
Tel (+351) 21.385.86.04
Fax (+351) 21.388.43.04
E-mail: cilisboa@rshv.clix.pt
Rabino Shlomo Vaknin:
E-mail: rshv@rshv.clix.pt

Departamento de Juventude da Comunidade Israelita de Lisboa
E-mail: cilisboa@rshv.clix.pt

Fonte: Revista Morashá

O QUE É A ORAÇÃO "KEDUSHÁ"?




A oração intitulada Kedushá (em hebraico, santificação) é cantada pelo chazan quando este repete a oração de Amida. Formada pelos pronunciamentos angelicais registrados pelos profetas Isaías e Ezequiel, somente pode ser recitada quando há um minian. Os sábios costumavam dizer que “rios de alegria” fluem do Trono Divino da Glória quando os anjos e o povo de Israel cantam seus versos. A Kedushá deve ser recitada de pé, mantendo-se os pés juntos. Isto simbolizaria os anjos, que, segundo a visão do profeta Ezequiel, têm "pés retos". E quando é proferida a proclamação, "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos. Toda a terra esta plena de Sua Glória" é costume fazer-se movimentos seguidos de elevação das pontas dos pés para simular o vôo dos anjos.

Fonte: Revista Morashá
28 de junho / 20 Tammuz 5773

28 de junho de 2013

A RAZÃO DA QUEDA DOS DOIS TEMPLOS SAGRADOS EM JERUSALÉM



Tisha B'Av, o nono dia do mês judaico de Menachem Av, é um dia de luto nacional para o Povo Judeu porque nesta data foram destruídos o Primeiro e o Segundo Templo.
Com exceção de Yom Kipur, Tisha B'Av é a única data do nosso calendário na qual somos obrigados a jejuar durante mais de 24 horas. Mas, enquanto Yom Kipur é um dos dias mais felizes do ano, um dia de Perdão e Clemência Divina, Tisha B'Av é o dia mais triste do calendário judaico. É a culminação de um período de três semanas de luto nacional que se inicia em 17 de Tamuz - um dia de jejum que começa antes do amanhecer e termina após o pôr-do-sol.

Foi no dia 9 de Menachem Av que o Primeiro e o Segundo Templo Sagrado de Jerusalém foram destruídos. Construído pelo Rei Salomão, filho e herdeiro do Rei David, o primeiro Beit Hamicdash foi destruído em 422 antes da Era comum pelos exércitos de Nabucodonosor, rei da Babilônia.

O segundo, erguido sob a liderança de Ezra após a volta dos judeus de um exílio de 70 anos, na Babilônia, foi destruído 490 anos após o Primeiro Templo pelas legiões romanas que exilaram os judeus da Terra de Israel.

Jejuamos e lamentamos em Tishá B'Av a destruição do Templo Sagrado por ser esta a causa primordial do sofrimento do Povo Judeu. As conseqüências foram dramáticas: exilado da Terra de Israel, nosso povo se dispersou pelos quatro cantos do mundo, permanecendo durante dois mil anos à mercê de outras nações. Foram dois milênios de perseguição, discriminação, expulsões, pogroms e mortes que culminaram na Shoá.

A destruição do Templo Sagrado, Morada de D'us na Terra, teve sérias conseqüências e continua tendo, não só para o Povo Judeu, mas para a humanidade como um todo. Poucos sabem que o Templo não era apenas o local mais sagrado da cidade mais sagrada da Terra, mas, em termos espirituais, era o escudo protetor do mundo, pois os serviços lá realizados expiavam não somente os pecados dos Filhos de Israel, mas também os de toda a humanidade. Desde a destruição do Templo, os homens perderam uma grande fonte de proteção.

Nossos Sábios ensinam que nas gerações em que o Templo não for reconstruído é como se o mesmo tivesse sido novamente destruído. Isto significa que continuam sendo cometidos os mesmos pecados e erros que causaram a queda do Primeiro e Segundo Templo. Somente quando aprendermos com estes erros, quando deixarmos de cometê-los, o Terceiro Templo será construído, estabelecendo na Terra a utopia com a qual o homem sempre sonhou.



Por que o Primeiro Templo caiu

No Talmud, no Tratado de Yoma, está escrito que o Primeiro Templo foi destruído porque na época os judeus cometiam três pecados capitais: idolatria, imoralidade (adultério e incesto) e assassinato. Mas, ainda no Talmud, o Tratado de Nedarim aponta para outra razão. Está escrito que o Primeiro Templo caiu porque antes de estudar a Torá os judeus não recitavam a bênção apropriada.

Idolatria, imoralidade e assassinato - pecados tão graves que um judeu não pode cometê-los nem para salvar sua vida - podem até justificar a destruição do Templo e o exílio do nosso povo da Terra de Israel. Mas o fato de não recitar uma bênção antes de estudar Torá parece ser uma infração técnica, algo que não poderia ter conseqüências tão catastróficas. No entanto, explicam nossos Sábios que o fato de os judeus cometerem pecados cardeais tão graves, que levaram à destruição do Primeiro Templo, está ligado à forma como se relacionavam com a Torá.

Pergunta o Maharal de Praga, grande cabalista famoso por ter construído o Golem: "Por que a Terra está-se perdendo? A resposta dada por ele é que a Torá foi abandonada. E o que significa abandonar a Torá? Significa não a bendizer". Pois, abençoar a Torá antes de estudá-la - declarando "Santificado és Tu, o Eterno,.... que nos deste a Tua Torá" - é reconhecer que esta pode ser uma dádiva, mas que a Torá ainda pertence a D'us, não a nós. Por outro lado, não recitar a bênção antes de estudá-la, significa removê-la da esfera da santidade. É tratar a Torá, que é a Vontade e a Sabedoria Divina, como qualquer outra obra literária, estudando-a como se fosse matéria da história ou do direito. É transformar o sagrado em profano - e esta é a própria definição de sacrilégio. É ofender tanto à própria Torá como Àquele que a outorgou ao Povo Judeu.



Apesar de D'us estar disposto a relevar muitos dos erros e pecados que cometemos, a omissão em relação à bênção da Torá é algo que Ele não pode ignorar. Fica mais fácil entender a gravidade disso através de uma simples analogia: se alguém se machucar, a dor é transmitida ao cérebro. Mas a ferida mais perigosa é aquela que atinge diretamente o cérebro. Diminuir a santidade da Torá é atingir o âmago do judaísmo, pois esta é como um fio de alta tensão que conecta o homem finito com o Criador Infinito. Se alguém decidir brincar com esse fio de alta tensão - ao interpretar a Torá da forma que lhe convém, mudando ou revogando suas leis, ou a explorando em benefício próprio - corre o risco de ferir sua alma. Ao tratar a Torá como se fosse uma obra humana e não Divina, rompe a ligação desse fio espiritual com sua Fonte. Quando isso acontece, escreve o Maharal de Praga, a Torá trazida por Moshé dos Céus à Terra perde a sua permanência. Deixa de ser a Árvore da Vida e passa a ser uma árvore cortada de sua Raiz, e, inexoravelmente, definhará e acabará por morrer. Isso foi o que levou o povo a cometer pecados tão graves, na época do Primeiro Templo.

Na realidade, os três pecados cometidos foram a matriz de todas as transgressões. A idolatria representa todos os pecados contra D'us; a imoralidade sintetiza todos os que são cometidos por causa de desejos imorais e egoístas; e o assassinato simboliza toda a maldade que o homem comete contra outros seres humanos. Em muitos casos, tais pecados são cometidos quando os homens abandonam a Palavra de D'us, desconectando-se Dele.

Ao ser arrancada de sua Raiz, a Torá se torna apenas mais um código de leis, que pode ser mudado ou até descartado. Não surpreende, portanto, que justamente na época em que os judeus não costumavam bendizer a Torá, a idolatria se tenha disseminado. Ambos os fenômenos são meios pelos quais o homem remove de si o jugo Celestial. Como ressalta o Talmud, os judeus jamais praticaram a idolatria por serem tolos o suficiente para acreditarem em seu poder. Muito pelo contrário: as pessoas adoravam estátuas, estrelas e um bezerro de ouro por serem objetos inanimados, sem poder algum, que nada proíbem ou exigem, e que não punem. Por outro lado, ao nos transmitir Sua Vontade através da Torá, D'us nos deu uma longa lista do que devemos e do que não podemos fazer, e Ele está sempre atento às nossas ações e omissões.

É de extrema importância ressaltar que ofender a Torá não é uma questão de observância religiosa, mas sim de como cada um de nós se relaciona com a Vontade Divina. Aquele que a honra, a considera sagrada, a Palavra de D'us, mesmo que ele próprio não viva sempre de acordo com suas leis ou seu espírito. Tal pessoa vive em um universo centrado no Todo Poderoso. O problema surge quando o indivíduo se coloca no centro do universo e acredita que a Torá deve adaptar-se a ele. Quando isso acontece, a pessoa abandona a Torá de D'us e a transforma em sua própria Torá. E quanto mais a pessoa segue este caminho, maior dano espiritual causa. As conseqüências, como na época da queda do Primeiro Templo, são pecados contra D'us e contra o homem.



Por que caiu o Segundo Templo

Uma das conseqüências da destruição do Primeiro Templo foi o exílio babilônico, que durou 70 anos. Foi um exílio extremamente curto, como um piscar de olhos, quando comparado ao de 2.000 anos iniciado após a queda do Segundo Templo. Mas, por que o Segundo Templo foi destruído? E por que o segundo exílio foi desproporcionalmente mais longo e mais difícil do que o primeiro? O Talmud nos responde: durante a época do Segundo Templo, apesar de serem judeus observantes, os judeus odiavam uns aos outros. Estudavam a Torá da maneira correta, seguiam suas leis e até faziam atos de bondade e caridade. Mas se odiavam e difamavam uns aos outros, nutriam ressentimentos e se alegravam com a desgraça alheia. Nossos Sábios, então, concluem: se a extensão do exílio é uma medida para avaliar a gravidade de um pecado, o ódio entre judeus é pior do que ofender a Torá e cometer os três pecados cardeais.

De fato, Maimônides escreve que a Torá foi dada para estabelecer a paz no mundo. Seu propósito é aproximar os judeus de D'us e, também, uns dos outros. É verdade que quando alguém - por rancor ou indiferença, e não por falta de conhecimento - deixa de abençoar a Torá, ele a ofende. Mas quando um judeu odeia outro judeu, seu ato é muito pior: ele nega a Torá, pois invalida seus objetivos. Além do mais, o ódio entre judeus é uma afronta à Unidade d'Aquele que nos deu a Torá. É verdade que sabemos muito pouco sobre D'us, mas sabemos que Ele é absolutamente Um. Quando nós, Seu Povo, estamos unidos, refletimos a Sua Unidade.

Rashi, o clássico comentarista da Torá, escreve que quando esta foi dada no Monte Sinai, os judeus estavam tão unidos quanto um homem com um único coração. Foi esta unidade que os tornou merecedores da Revelação de D'us e da outorga de Sua Palavra. O maior momento da história judaica aconteceu quando o povo estava unido. Não surpreende, pois, que o pior acontecimento da epopéia judaica - o dia de Tishá B'Av, no qual o Segundo Templo foi destruído, levando os judeus ao seu mais longo exílio - tenha ocorrido quando prevaleciam as lutas internas e a desunião entre nós.



Unidade no seio de nosso povo, não significa que todos devamos concordar sobre todo e qualquer assunto. Significa, porém, que jamais devemos deixar de nos ver como parte de um organismo único. Quando judeus odeiam judeus - quando se ressentem, caluniam e se rejeitam, uns aos outros - estão prejudicando mais o Povo Judeu do que o conseguiriam os nossos inimigos. Não há guerra mais cruel e devastadora do que a guerra fratricida, travada entre irmãos. Uma analogia pode ajudar a entender este princípio: doenças do sistema auto-imune são as mais terríveis e em muitos casos letais. Ocorrem quando o organismo deixa de se reconhecer como uma unidade e passa a considerar certas partes dele mesmo como elementos estranhos, indesejáveis. Reage como se estivesse diante de invasores, tentando expulsá-los. No caso de certas doenças, o resultado é fatal.

Essa analogia explica a razão para a destruição do Segundo Templo e para os 2.000 anos de exílio. Quando os judeus se voltam uns contra os outros - quando tratam outros judeus como indesejáveis - estão agindo como a doença auto-imune, inconscientes de que estão atacando não um corpo estranho, mas a si mesmos.Portanto, ainda que seja inegável que há diferenças importantes e, às vezes, dolorosas entre os diferentes grupos que integram o Povo Judeu, jamais podemos esquecer que somos todos partes de um mesmo organismo. Um indivíduo pode estar insatisfeito com algumas correntes judaicas - pode desaprovar seus costumes, visão política ou grau de observância religiosa - mas ninguém pode negar que todos fazemos parte do mesmo povo e que, apesar das discordâncias e dos argumentos, são "meu osso e minha carne" (Gênese 29:14). Como nos ensina o misticismo judaico, o Povo Judeu faz parte de uma única alma cujas faíscas encarnam em corpos diferentes.
O Terceiro Templo de Jerusalém será mais grandioso que os dois primeiros. Ele poderia e deveria ter sido construído há muitos e muitos anos. Se ainda não foi - se nós ainda jejuamos e nos lamentamos em Tishá B'Av - é porque ainda não retificamos totalmente os pecados que levaram à queda dos dois Templos.



O Zohar, obra fundamental da Cabalá, fala do triângulo espiritual que une D'us, Sua Torá e Seu Povo. O Rebe de Lubavitch, que dedicou sua vida para acabar com o exílio do Povo Judeu, ensinou que se encontrarmos um judeu que ama a D'us, mas que não tem amor pelo seu povo e pela Torá, devemos dizer-lhe que seu amor não perdurará. No entanto, se encontrarmos um judeu que ama seu povo, mas que não tem amor por D'us e pela Torá, devemos trabalhar com ele para alimentar seu amor por seu povo até que este transborde em direção aos outros dois, até que os três amores se unam em um único nó forte que jamais há de se romper.

Quando nós nos unirmos, como indivíduos e como povo, e nos aproximarmos de D'us e de Sua Torá, teremos finalmente retificado os erros das gerações que nos precederam. Quando isso acontecer, todos os judeus retornarão a Israel e o Terceiro Templo será construído. Como todos os nós do triângulo que unem D'us, Sua Torá e Seu Povo jamais serão rompidos, não haverá outro exílio e o Terceiro Templo perdurará para sempre. Este servirá como proteção e bênção para toda a humanidade, e a santidade da Terra de Israel se espalhará e cobrirá todos os cantos da Terra.

Fonte: Revista Morash'a
Edição 61 - julho de 2008

26 de junho de 2013

O SIGNIFICADO MAIOR DO BAR-MITZVÁ

Qual o significado desta cerimônia e em que, de fato, altera a vida do jovem judeu?
Ao completar 13 anos, um jovem atinge a maioridade religiosa judaica. para marcar esta passagem, é celebrado o Bar-Mitzvá, uma cerimônia que ressalta a importância de cada um dos judeus na corrente ancestral do judaísmo.



Ao completar 13 anos, o jovem atinge a maioridade religiosa judaica. Para marcar esta passagem, é celebrado o Bar-Mitzvá, uma cerimônia que ressalta a importância de cada um dos judeus na corrente ancestral do judaísmo. É nessa data que o jovem, pela primeira vez, coloca os Tefilin e é chamado para ler na Torá.
O judaísmo considera o jovem de 13 anos maduro o suficiente para ser responsável por seus atos. Na Torá, Livro do Gênese, há um verso que indica que é a partir desta idade que um menino se torna homem. Referindo-se a dois filhos do patriarca Jacob, Shimon e Levi, narra o texto da Torá: "Cada um dos homens pegou sua espada...". Na época em que ocorreu esse episódio, Levi tinha 13 anos de idade. Ele foi a pessoa mais jovem a quem a Torá se referiu como "homem", revelando assim que aos treze anos é a idade em que um judeu assume a maioridade religiosa. De acordo com o Talmud, um menino torna-se adulto com 13 anos e 1 dia, independentemente do fato de ter ou não atingido a puberdade. Como as meninas amadurecem mais cedo, o Bat-Mitzvá, celebração de sua maioridade religiosa, é comemorado aos 12 anos.
O Código de Lei Judaica ensina que, a partir dessa data, os jovens passam a ser totalmente responsáveis pelo cumprimento dos Mandamentos Divinos, as mitzvot, não mais os cumprindo apenas porque assim seus pais lhe ensinaram. Seu pai, portanto, deixa de ser responsável pelos seus atos, como está prescrito no Shulchan Aruch HaRav.
Em hebraico, Bar-Mitzvá e Bat-Mitzvá, significam literalmente "filho ou filha do mandamento". A própria palavra revela a importância espiritual da data, quando a ligação de um jovem com o judaísmo se torna imutável. O judeu, em sua essência, é filho da mitzvá, ou seja, da Palavra e Vontade Divina transmitidas a nosso povo por D'us. Foi naquele momento, ao pé do Monte Sinai, que a ligação espiritual entre o D´us e o povo de Israel se tornou eterna. Façamos aqui um paralelo com a relação entre filho e pai. O filho pode até se afastar de seu pai, mas ele sempre continuará a ser seu filho. Da mesma forma, um judeu, ao longo de sua vida, ainda que se afaste de suas raízes, o vínculo de sua alma com D'us e com o judaísmo é eterno.
Ensina a Cabalá que no dia de seu Bar ou Bat-Mitzvá, todos os judeus recebem uma alma adicional, cujo único desejo é fazer o bem, apegar-se a D'us e cumprir Seus mandamentos. Esta nova alma é diferente da alma de uma criança, cujos desejos são quase inteiramente materiais.



A cerimônia do Bar-Mitzvá

As leis que regulam o Bar-Mitzvá foram passadas por D'us a Moisés e, com o decorrer do tempo, várias tradições surgiram no seio das diferentes comunidades espalhadas pelo mundo.
O Bar-Mitzvá costuma ser comemorado na sinagoga, na segunda ou quinta-feira mais próxima da data do aniversário do jovem segundo o calendário judaico. Diante da comunidade, durante as preces da manhã, o menino lê o primeiro segmento da Perashá - a Porção Semanal da Torá - que será lida, por inteiro, no Shabat seguinte.
A leitura da Torá é elemento fundamental da cerimônia, já que receber uma aliá - ou seja, ser chamado a ler a Torá - é uma dádiva espiritual que só pode ser dada a um judeu que já tenha completado 13 anos de idade.
Na tradição sefaradita, a cerimônia do Bar-Mitzvá tem início com a colocação de um novo talit - O xale ritual sagrado que envolve os homens durante as rezas - sobre o qual o jovem recita bênçãos que são seguidas pelo shecheheianu - a berachá tradicional de agradecimento a D´us por nos ter dado o privilégio de estar vivenciando tal data.

Sabedoria e ética

A partir do Bar-Mitzvá, os sefaraditas sempre usam o talit durante as rezas da manhã. Em algumas comunidades asquenazitas, os homens judeus passam a rezar com o talit apenas após se casarem.
A cerimônia do Bar-Mitzvá continua com a colocação dos Tefilin - os filactérios de couro. O mandamento do Tefilin, um dos mais importantes da Torá, constitui um elemento fundamental do Bar-Mitzvá, pois, com raras exceções, os Tefilin só são usados depois que o jovem completa 13 anos de idade. A partir do Bar-Mitzvá serão colocados todos os dias, à exceção de Shabat e dos Chaguim, os dias das Festas. Os Tefilin ligam os judeus a D´us, além de proteger e abençoar aquele que os portam. São o próprio símbolo do Bar-Mitzvá e de tudo que essa data religiosa implica. Os Tefilin são colocados no braço, junto ao coração, e sobre a cabeça, simbolizando a razão. A tira de couro que amarra o braço é passada sete vezes em torno deste. Na cerimônia do Bar-Mitzvá, costuma-se dar aos avós o cavod, isto é, a honra, de darem as primeiras voltas em torno do braço seguidas de outros familiares ou convidados que mereçam tal honraria.
Entre os sefaradim as mulheres costumam jogar confeitos de amêndoas sobre o jovem Bar-Mitzvá quando ele acaba de ler a Torá, pela primeira vez, para lhe trazer boa sorte. Ao terminar a leitura, o jovem é saudado pelos presentes com os votos de Besiman Tov, como um bom augúrio, significando o desejo de que aquela aliá seja um presságio para futuras bênçãos e alegrias em sua vida. Algumas comunidades também abençoam o jovem com as seguintes palavras: "Que tenhamos a graça de o ver sob a chupá, o pálio nupcial, com seu pai e sua mãe e com todos seus familiares, em boa saúde".
Após a leitura da Torá, existe o hábito do jovem pronunciar um discurso para mostrar a sua sensibilidade em entender os comentários dos Textos sagrados, afirmar seu compromisso com o judaísmo e assumir seu lugar na comunidade.
A cerimônia do Bar-Mitzvá continua no Shabat. Em algumas comunidades, o jovem conduz as orações de Shabat na sinagoga. O essencial, porém, é que ele seja novamente chamado para ler a Torá e, logo após, a Haftará, que é um trecho tirado dos Livros dos Profetas, relacionado ao assunto da Perashá da semana.
É importante ressaltar que, aos 13 anos de idade, um jovem se torna Bar-Mitzvá ainda que não seja celebrada a cerimônia. A razão para tal é que todo judeu, nessa idade, se torna "filho da mitzvá" - isto é, responsabiliza-se pelo cumprimento da Lei Judaica. A cerimônia tem grande valor espiritual, mas ela por si só não define a maioridade religiosa. Muitos judeus que não tiveram a oportunidade de celebrar o Bar-Mitzvá aos 13 anos de idade - ou, no caso das meninas, seu Bat-Mitzvá, aos 12 - fizeram-no mais tarde, em fase posterior de sua vida. Como um exemplo de que o vínculo de um judeu com D'us e Seus Mandamentos é eterno, o famoso ator judeu Kirk Douglas celebrou seu Bar-Mitzvá pela segunda vez, aos 83 anos de idade, como uma demonstração de seu retorno à prática do judaísmo.



A importância do Bar-Mitzvá

A transição mais importante na vida de um judeu, além do casamento, é seu Bar-Mitzvá. O dia do Bar-Mitzvá, data hebraica do 13º aniversário do jovem, é o momento no qual ele se torna um emissário de D'us, comprometido com o cumprimento dos Mandamentos Divinos, as mitzvot (Mishná - Avot, 5.21). A palavra mitzvá possui mais um significado, além do termo mandamento - "conexão". Tal sentido implica que no dia de seu Bar-Mitzvá é estabelecida uma verdadeira conexão entre o jovem judeu e o Todo-Poderoso.
O número 13 é numericamente equivalente à palavra "echad", cuja tradução é "um". Esta unidade é demonstrada pelo fato de que após o seu Bar-Mitzvá o menino já pode ser contado como um membro do minián, o quorum mínimo de dez homens necessário para a realização das orações em grupo.
Como vimos, o dia do Bar-Mitzvá marca uma mudança na maneira de aprender e colocar em prática os mandamentos. Como recompensa divina por seu cumprimento, o jovem é abençoado com novas forças físicas e espirituais. Nessa data, ele recebe um novo mazal, uma nova força espiritual que, quando corretamente canalizada, lhe trará grandes bênçãos e lhe permitirá realizar grandes atos.
Alguns jovens "acordam" diferentes na manhã de seu Bar-Mitzvá. Olham-se no espelho, à procura de algum sinal novo de barba em seu rosto imberbe ou alguma outra mudança em sua fisiologia. É possível que leve mais alguns meses para que haja alguma mudança visível. O que ocorre é mais sutil, é um outro tipo de maturidade. Pois, segundo nossos textos místicos, é a partir do Bar-Mitzvá que um jovem passa a se deparar com um lado mais profundo de sua personalidade, até então desconhecido.
Após o Bar e Bat-Mitzvá, os jovens entram na adolescência, a época dos conflitos. Mas, também, é quando, os jovens vão tendo percepção de outras realidades - a voz da alma começa a se manifestar enquanto desponta diante deles o mundo espiritual.
É quando se inicia a busca por um significado maior na vida e por uma conexão entre os seus diversos aspectos. É quando o jovem se defronta com a sua própria personalidade em uma dimensão sobre a qual jamais pensara. É justamente essa percepção que faz do jovem um ser "adulto" responsável e capaz de conviver harmoniosamente em um mundo complexo e conflitante, cumprindo sua missão de acordo com o pacto assumido por nosso povo com D'us.

Bibliografia

The Encyclopedia of Judaism, Geoffrey Wigoder
Entering Adulthood - the Bar and Bat-Mitzvah, Aron Moss
The Significance of a Bar-Mitzvah, Rabbi Nissan Dovid Dubov
A Treasury of Sephardic Laws and Customs, Rabbi Herbert C. Dobrinsky
Fonte: Revista Morashá
Edição 53 - junho de 2006