20 de janeiro de 2019

MEMORIAL DA IMIGRAÇÃO JUDAICA EM SÃO PAULO


O museu reúne importante acervo com documentos e obras raras que narram a história e a contribuição dos imigrantes judeus ao desenvolvimento do Brasil desde os seus primórdios (Foto: André Nehmad e Lilian Knobel)

A cidade de São Paulo ganha o seu primeiro Memorial da Imigração Judaica. Localizado na sede da Sinagoga mais antiga do Estado, a Kehilat Israel (Congregação de Israel, em hebraico), na Rua da Graça, no bairro do Bom Retiro, o museu reúne importante acervo com documentos e obras raras que narram a história e a contribuição dos imigrantes judeus ao desenvolvimento do Brasil desde os seus primórdios.




O Memorial terá entrada gratuita e contará, de forma didática, a história e contribuições que os judeus trouxeram ao País; especialmente a cidade de São Paulo

“O Memorial da Imigração Judaica do Brasil surge como uma nova e importante instituição a ser incluída no roteiro histórico e cultural não só da cidade, como do País”, afirma o Rabino Toive Weitman, coordenador da nova instituição. 

Alguns judeus estavam no navio de Pedro Álvares Cabral e, no século 17, já havia uma comunidade estabelecida em Recife, na época sob domínio holandês. Raridades como objetos, vestimentas, documentos e livros do século 17, vindos de diversos países, são algumas das obras do precioso acervo. O Memorial terá entrada gratuita e contará, de forma didática, a história e contribuições que os judeus trouxeram ao País.

Na noite da inauguração, prestigiada por lideranças comunitárias, autoridades e descendentes dos imigrantes, palavras emocionadas marcaram os discursos que relembraram a trajetória dos primeiros judeus a se instalar no Brasil, plantando as sementes de uma comunidade que ajudou a construir a cidade e o País. Homenagens foram prestadas àqueles que permitiram a concretização do projeto e, também, a sua continuidade nas décadas seguintes: as famílias Steinbruch, Safra, Dayan e Leiman. Não faltaram, também, palavras de agradecimentos a todos que, de uma forma ou outra, contribuíram e ainda contribuem para iniciativas que garantem a manutenção da cultura, tradições e valores judaicos.

“Nesta noite prestamos uma homenagem a todos os imigrantes. Somos todos imigrantes ou filhos de imigrantes deste País que nos recebeu tão bem e nos deixa tão à vontade para realizar muitas coisas. Tínhamos a obrigação de criar este Museu da Imigração Judaica e restaurar a mais antiga sinagoga do Estado de São Paulo. Ela pode ser pequena em tamanho, mas é gigante em sua história e lembranças dos pioneiros e heróis que aqui fundaram a comunidade judaica de São Paulo, em 1912. E este é um Memorial que preserva a nossa história, os nossos valores e costumes, de forma extremamente profissional e tecnológica. Mas este é apenas o primeiro passo, pois através da colaboração de toda a coletividade, com fotos e documentos, cada um ajudando dentro das suas possibilidades, cresceremos cada vez mais”, disse Benjamin Steinbruch ao falar em nome da família. A Sinagoga Kehilat Israel foi renomeada em homenagem a seus pais, Dora e Mendel Steinbruch.

Entre as inúmeras peças expostas, o Memorial traz preciosidades como o diário de viagem de Henrique Sam Mindlin (da família Mindlin, da Metal Leve e da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin). O diário, escrito em 1919, quando o garoto de apenas 11 anos, narra sua migração de navio de Odessa (Ucrânia) até o Rio de Janeiro. Outra raridade é o livro Diálogos de Amor, de 1580, escrito por Judah Leon Abravanel (ou Abrabanel), também conhecido, em italiano, como Leone Ebreo, de Veneza. Ele era filho do renomado Rabi Don Isaac ben Judah Abravanel, que, no ano de 1492, após os reis Fernando e Isabella terem proclamado o Edito expulsando todos os judeus da Espanha, em desesperado apelo, atira-se aos pés dos Reis Católicos, pedindo-lhes a revogação de tão infame decisão. Infelizmente, em vão. Abravanel foi um antepassado do apresentador Silvio Santos. Também ali se encontra um documento com mais de 250 anos utilizado pelos imigrantes marroquinos como talismã, que contém frases cabalistas de proteção e saúde, em hebraico.

. Um sonho realizado:

O projeto para criação do Memorial surgiu no ano de 2004, quando os responsáveis pela sinagoga Kehilat Israel manifestaram o desejo de que fosse preservada a lembrança e a história dos pioneiros que construíram aquele templo. A partir da ideia de que os imigrantes judeus estão no Brasil desde o século 17 e, em decorrência de sua contribuição histórica para a construção de valores e da cultura brasileira, idealizou-se este Memorial para preencher uma lacuna sobre a história judaica. “É uma forma de gratidão do povo judeu ao acolhimento oferecido pelo Brasil em quase 400 anos, desde que se instalaram por aqui, e uma homenagem aos imigrantes judeus que aqui aportaram”, explica o rabino Toive Weitman.

Por trás da ideia do memorial está o rabino Y. David Weitman, que sugeriu como ponto de partida do projeto reunir relatos, objetos, livros, documentos, roupas, entre outros, das seis ondas migratórias judaicas que aqui chegaram desde o século 17. Para se tornar realidade, o Memorial contou com o apoio de um grupo de idealistas e patrocinadores, o que possibilitou a reforma e ampliação dos cinco andares da Sinagoga, mantendo a fachada original. O Memorial passa a ser uma nova opção no roteiro histórico-cultural da cidade. Além da mostra permanente que contempla diversas obras, pretende receber exposições temporárias.

O sonho começou a se tornar realidade em dezembro de 2012, quando foi lançada a pedra fundamental do Memorial, na presença do então prefeito da cidade, Gilberto Kassab, e do grão-rabino de Israel, Ionáh Metzger. Simultaneamente, iniciou-se um extenso trabalho de pesquisa com a participação de historiadores do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro e da BASE 7 Projetos Culturais, responsável pelo projeto arquitetônico e expográfico, e pelo Conselho Curador da entidade.

Para organizar o acervo, a equipe do Memorial contou com a ajuda da comunidade judaica, que costuma guardar lembranças e histórias para recordar seu passado e não deixar que as futuras gerações percam seus costumes, valores e ideais mantidos nos últimos séculos.  Os imigrantes e seus descendentes doaram parte de seus objetos, documentos, livros, roupas, entre outras relíquias, ajudando a recontar a importância histórica da presença judaica desde os primórdios do Brasil.

“O Memorial nos surpreende pelo tratamento humano, afetivo e pedagógico que foi dado a seu acervo, graças à adoção de uma novíssima concepção museológica, permitindo ao visitante vivenciar de modo intenso e abrangente os conteúdos expositivos. Os temas religiosos, históricos e culturais são apresentados de modo atrativo, pela interatividade ou pelos meios tecnológicos de representação que enriquecem nossa relação com os temas abordados. Assim, as narrativas se tornam fascinantes”, comenta o curador-mor do Memorial, professor Fábio Magalhães.

Ações educativas fazem parte do projeto museológico, que receberá visitas monitoradas de escolas. História, arte e cultura em um só lugar, que será referência para aqueles que procuram cultura e conhecimento. “Criamos o Memorial da Imigração Judaica para preencher a lacuna que faltava sobre a imigração do nosso povo. O Brasil sempre foi um país tolerante, que recebeu os imigrantes de braços abertos; e grupos de outras origens, como, por exemplo, os italianos e japoneses, já possuíam centros próprios que retratam sua história e percurso desde o país de origem. E, até hoje não tínhamos nada parecido sobre a comunidade judaica no Brasil”, afirma Breno Krasilchik, presidente do Conselho Consultivo do Memorial da Imigração Judaica.

Fazem parte do Conselho Curador do Memorial Fábio Magalhães, curador mor, e os membros Ary Diesendruck, Bernardo Lerer, Daniel Anker, Gershon Knispel, Guilherme Faiguenboim, Isser  Korik, Joel Rechtman, Marcio Pitliuk, Maria Luiza Tucci Carneiro,  Paulo Valadares, Rachel Mizrahi, Reuven Faingold, Silvio Band, Terezinha Davidovich, Vera Frank e o Rabino Y. David Weitman. 

.Design interno e conteúdo:

No primeiro andar do Memorial está localizada a Sinagoga Kehilat Israel, que conserva as características originais de sua inauguração em 1912, e está totalmente restaurada e preservada. Ao subir as escadas, o visitante é recebido por um áudio nas diferentes línguas faladas pelos imigrantes judeus que aportaram no Brasil. No segundo andar, estão expostos objetos e documentos históricos que retratam o ciclo de vida de um judeu, do nascimento à morte, e, também, dos hábitos e costumes milenares.

Vídeos educativos e interativos apresentam alguns dos principais costumes e valores judaicos, as distintas tradições e diferenças regionais. Celebrações, feriados e festividades são destacados, dentre elas, o casamento. Para isso, foi montada uma chupá, com uma taça virtual que pode ser quebrada, assim como em uma cerimônia de verdade.
Do lado direito, foi construída uma grande galeria com imagens de diversas famílias imigrantes. Telas interativas com as legendas dos personagens estão à disposição dos visitantes. Além disso, judeus podem encontrar seus antepassados consultando estes monitores.

A comida é entendida como nutrição espiritual e repleta de simbolismos e benefícios. Uma mesa virtual e interativa foi montada com diferentes receitas, que variam conforme as datas comemorativas. Junto com o Memorial foi criado um centro de estudos e pesquisas para que o tema da imigração judaica continue a ser estudado. Referência para pesquisadores e todos interessados em aprofundar na cultura e conhecimento do povo judaico, o Centro de Estudos e Análise do Acervo – CEAA está localizado nesta parte do Memorial. 

Em 2017 foi inaugurado o acervo do terceiro andar. Os 12 países de origem dos imigrantes, as conquistas pelo mundo, as diferentes razões para a imigração são alguns dos temas apresentados no último andar, onde será montado também o espaço dedicado ao Holocausto, relembrando esta parte da história.
No subsolo estão expostos painéis tecnológicos e interativos, e uma galeria de personalidades judaicas já falecidas que contribuíram, no decorrer dos séculos, para o desenvolvimento do Brasil. Em outra ponta, foi montada uma grande mesa que projeta um antigo mapa do bairro e como as diversas organizações judaicas foram-se estabelecendo na região. Uma loja com artigos e livros da cultura judaica e uma lanchonete com comidas típicas também foram montadas no subsolo. 

. Horário:

O Memorial está aberto de domingo a sexta-feira, das 10h às 17h. Para agendamento de grupos que queiram fazer uma visita guiada, será necessário marcar comantecedência.

A inauguração do Memorial foi prestigiada pelas seguintes personalidades: Floriano Pesaro, secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo representando o governador Geraldo Alckmin; Gilson Donizete Marçal,   representando o Ministro da Cultura, Juca Ferreira; Marcelo Mattos Araujo, secretário estadual da Cultura; Ari Friedenbach, vereador por São Paulo; Marcos da Costa – presidente da OAB; Fernando Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil; Bruno Lascovsky, presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo; Yoel Barnea e Osias Wurman, Cônsules de Israel; Jack Terpins, presidente do Congresso Judaico Latino Americano, e muitos outros.

Aqueles que possuem documentos antigos, objetos da cultura judaica, livros, ketubot, etc. e quiserem doar ou emprestar esses artigos ao Memorial, queiram, por favor, comunicar-se com Yasmin, pelo telefone 3331-4507, São Paulo.

. Fontes:

Revista Morashá - Edição 91 - Abril de 2016

crédito - fotos: André Nehmad e Lilian Knobel

http://www.morasha.com.br/brasil/memorial-da-imigracao-judaica.html



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