17 de março de 2019

O QUE É A "DESCOBERTA DA MATZEIVÁ?"



Cemitério de Vila Rosali (velho), em São Joao de Meriti (RJ)

"Quando o carro da funerária chega ao Cemitério Israelita, o caixão é levado a um quarto reservado que tem um lavatório e uma bancada, e cujas paredes são forradas com azulejos brancos. Ali, o Comitê Fúnebre irá preparar o morto para o sepultamento. As mulheres preparam um corpo feminino e, os homens, um masculino. Em primeiro lugar, retiram o corpo do caixão e o colocam sobre a bancada, onde é lavado com álcool.



Cemitério Israelita de Vilar dos Teles (novo), na Baixada Fluminense (RJ)

Este ritual representa um tributo valioso prestado ao falecido, por parte da comunidade judaica, sendo denominado tahará (purificação). Segundo a tradição, o ritual da purificação se repete há milênios: assim como veio, assim irá, isto é, da mesma forma que um recém-nascido é lavado, após o nascimento, e ingressa no mundo fisicamente limpo e espiritualmente puro, ao partir, também precisa ser purificado, ainda que de maneira simbólica.

A seguir, o corpo é vestido com uma mortalha, feita com morim branco e composta pelos seguintes elementos: uma calça comprida fechada até os pés, uma camisa, um camisão, uma espécie de cinto, um capuz (para cobrir a cabeça e o pescoço), e dois sacos, abertos em uma dos lados (para cobrir as duas mãos). A mortalha já pode vir confeccionada, ou é costurada à mão durante o velório. Se, por algum motivo, não houver uma disponível, o morto pode ser enrolado somente com um lençol branco de linho ou algodão. 

O passo seguinte é colocar uma pedra sobre cada olho e, outra, na boca. Isto impedirá, de acordo com o judaísmo, que o falecido venha a questionar a própria morte, ou que, antes do Dia do Juízo Final, encontre com Deus. Caso a pessoa que morreu seja do sexo masculino, por cima da mortalha coloca-se o seu talit (uma espécie de xale, com franjas nas extremidades, que os judeus usam durante as orações). Feito isso, fecha-se a tampa do caixão e, só então, ele é colocado sobre a bancada do velório. Vale ressaltar que, todas as ações relativas à preparação do corpo para o enterro, são sagradas e consideradas mitzvot(caridades).

As orações fúnebres são recitadas em hebraico, seja por um rabino, seja por um membro do Chevra Kadisha, mas, na ausência deles, qualquer integrante da comunidade israelita pode conduzir a cerimônia. O próximo ritual é denominado keriá: um sinal tradicional de luto que remete aos tempos bíblicos e, no qual, um pedaço da roupa dos enlutados é rasgada. Este é um sinal de que, diante da perda do ente querido, o coração dos parentes próximos está dilacerado.

Segundo a Torá (os cinco livros que contêm, entre outros, a compilação do judaísmo: os relatos sobre a criação do mundo e a origem da humanidade; o pacto de D’us com Abraão e seus filhos; a libertação dos filhos de Israel do Egito; a peregrinação de quarenta anos pelo deserto, até a Terra Prometida; os mandamentos e as leis que D’us entregou a Moisés), quando Jacob recebeu a falsa notícia de que seu filho, José, havia sido devorado por uma fera, reagiu rasgando as vestes (Gênesis 37:34). Davi rasgou suas roupas, também, quando foi informado sobre a morte do Rei Saul e do seu filho, Jonathan.. Durante o desenrolar desse ritual, recita-se a benção Baruch Dayan Emet (Bendito seja o verdadeiro Juiz) em uma demonstração de que, apesar da tragédia, a crença em D’us continua inabalável.

Na saída do cemitério há um lavatório, onde os judeus, segundo a tradição, têm que lavar as mãos depois dos sepultamentos (netilat iadaim). De acordo com a crença hebréia, ao se lavar as mãos e a água permanecer cristalina, significa que a pessoa não derramou o sangue do falecido. Além disso, a água representa a vida, portanto, simboliza que a vida suplanta a morte. 

. O período de shivá:

Ao voltar do cemitério, a família senta-se em shivá: todos devem permanecer em casa, de luto, durante sete dias. Umamitzvá muito importante, e uma das maneiras judaicas de se fazer o bem, é aparecer na casa dos enlutados, logo após o sepultamento, ou durante o período de shivá, e fazer-lhe companhia, sentando-se ao seu lado e oferecendo um ombro amigo. Durante aquele período, um grupo de dez homens (mínian) reza as orações fúnebres (kaddish).

. A cerimônia da "descoberta da matzeivá" (Lápide):

Alguns meses depois do enterro realiza-se a cerimônia da matzeiva, “descobrimento do túmulo” e inauguração da lápide, ou pedra tumular da sepultura judaica. Nessa cerimônia, o túmulo é coberto com um pano preto, em sinal de luto; reza-se o kaddishe, no final, retira-se o pano. Com esse ritual, encerra-se o período de luto. As pessoas colocam pedrinhas sobre a sepultura do ente querido, em sinal de resignação com a sua morte. Cabe salientar que o ritual de colocação das pequenas pedras sobre o túmulo é efetuado sempre que se visita as sepulturas, indicando que o morto é lembrado e reverenciado.
A religião judaica não apóia o luto excessivo porque este não é saudável para os vivos. Se o preto não se constituir na cor que sempre usou, o enlutado não deve usar roupa e gravata pretas, ou colocar uma tarja negra na lapela: precisa seguir vivendo a sua vida e se conformar com a morte.

Em duas ocasiões, apenas, a lei mosaica permite a abertura do túmulo e a retirada dos ossos. Primeiro: quando a comunidade judaica não possuía, ainda, seu próprio cemitério. Neste caso, assim que seja inaugurado um cemitério judeu, é permitido desenterrar os ossos e sepultá-los ali, para que o morto permaneça junto dos demais hebreus. E, segundo, quando a família deseja enterrar seus restos mortais no solo de Israel. Excetuando-se esses dois casos, qualquer ação que venha a perturbar o repouso do falecido recebe a denominação nivúl hamet (representa uma ofensa ao mesmo).

A religião judaica não aceita que se cometa suicídio, caso as pessoas estejam de posse das suas faculdades físicas e mentais (em hebraico, bedáat). Os suicidas são sempre enterrados à parte, afastados de todos os túmulos, geralmente próximo a um dos muros do cemitério. De acordo com a religião mosaica, somente D’us possui o direito de tirar a vida de alguém. No entanto, caso a pessoa se encontre em um estado grave de alienação mental, ou esteja sentindo uma dor física intensa, o suicídio é considerado anús: a pessoa estava fora de si e não pode ser responsabilizada por seus atos. Sendo assim, no sepultamento, merece receber os mesmos privilégios e tributos que uma pessoa falecida de morte natural. Em outras palavras: não é enterrada afastada dos demais.

. O Marranismo:

Todos esses rituais judaicos foram trazidos para o Nordeste do Brasil, por ocasião do Descobrimento. No período da colonização, os judeus da Península Ibérica foram atraídos ao Brasil-Colônia especialmente em busca de liberdade religiosa. Muitos deles eram cristãos-novos (ou marranos), aqueles hebreus convertidos à força pelos católicos, para escapar das fogueiras da Inquisição. Devido à sua formação acadêmica e conhecimentos técnicos, eles chegaram como importantes auxiliares dos portugueses. Outros vieram como degredados, em virtude de práticas judaizantes de menor importância.

Vale ressaltar que, a despeito da conversão forçada ao catolicismo, as famílias judias continuavam seguindo suas tradições dentro de casa. Com o passar dos séculos, vários rituais continuaram sendo repetidos, sem que se soubesse mais o motivo de suas práticas. Trata-se, hoje, de indivíduos que se dizem católicos, em termos de religião, mas que reproduzem tradições hebréias. Isto pode ser observado em certos atos praticados no agreste e no sertão de Pernambuco, e em outros Estados nordestinos que, sem sombra de dúvida, foram absorvidos do judaísmo. Um deles, por exemplo, diz respeito à exigência de ser sepultado com mortalha e sem caixão. E, um outro, refere-se à prática de colocar pedrinhas sobre os túmulos. Mesmo sem saber, as pessoas que repetem esses costumes poderão ter uma ascendência judaica.

. Fonte:

http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=255:enterro-judeu-&catid=40:letra-e

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