2 de fevereiro de 2021

A EXPRESSÃO "BARUCH HASHEM" (ברוך השם - ABENÇOADO SEJA O NOME)


Baruch Hashem (ברוך השם) é a principal expressão judaica de agradecimento e apreciação. Significa “Graças a D'us”, "Abençoado seja o Nome" ou “Louvado seja ao Senhor”

As palavras Baruch Hashem (ברוך השם) aparecem na parashá dessa semana. Mas não são pronunciadas por um judeu. O homem que as diz é Yitro, um sacerdote midianita e sogro de Moshê. Yitro retorna a Moshê após o Êxodo, trazendo com ele a esposa e filhos de Moshê, e após ouvir a história do que acontecera no Egito, ele diz: “Louvado seja o Eterno [Baruch Hashem], que te resgatou das mãos dos egípcios e do faraó, e que livrou o povo das mãos dos egípcios” (Shemot 18:10).



Acreditamos que D’us é universal. Ele criou o universo. Ele colocou em movimento os processos que levaram às estrelas, planetas, vida e humanidade

Três pessoas na Torá usam essa expressão – e todas elas são não-judeus, pessoas fora do pacto abrahâmico. A primeira é Noach, que diz: “Louvado seja o Eterno, o D'us de Shem” (Bereshit 9:26). A segunda é o servo de Avraham que é enviado para encontrar uma esposa para Yitschak: “Louvado seja o Eterno, o D'us de meu mestre Avraham, que não abandonou Sua bondade e fidelidade ao meu mestre” (Bereshit 24:27). A terceira é Yitro na parasha dessa semana.

Isso é significativo? Por que é que esse louvor a D'us é atribuído a Noach, Eliezer e Yitro, enquanto os israelitas, além de sua canção de agradecimento após a abertura do mar, parecem fazer reclamações constantes? Pode ser simplesmente que essa é a natureza humana: tendemos a focar naquilo que está faltando em nossas vidas, enquanto outros veem mais claramente que fazemos as bênçãos que temos. Reclamamos, enquanto outros se perguntam por que estamos reclamando quando temos tanto a agradecer. Essa é uma explicação.

É possível que um ponto até mais importante esteja sendo feito. A Torá está assinalando sua ideia mais sutil e menos entendida: que o D'us de Israel é o D'us de toda a humanidade, embora a religião de Israel não seja a religião de toda a humanidade. Como disse Rabi Akiva: “Amada é a humanidade, pois foi criada à imagem de D'us. Amado é Israel, pois são chamados filhos de D'us” (Mishná Avot 3:14).

. Pontos a Refletir:

. Como pode o D'us de Israel ser também o D'us de toda a humanidade?

. Se D'us é universal (o mesmo para todos), por que precisamos de religiões diferentes para adorá-lO?

. Pensando Mais Profundamente:

Acreditamos que D’us é universal. Ele criou o universo. Ele colocou em movimento os processos que levaram às estrelas, planetas, vida e humanidade. Sua preocupação não se limita a Israel. Conforme dizemos na oração de Ashrei, "Suas ternas misericórdias estão em todas as Suas obras."

Você não precisa ser judeu para ter um senso de reverência pelo Criador ou reconhecer, como Yitro fez, Sua mão em eventos milagrosos. Seria difícil encontrar outra literatura religiosa que confira tamanha dignidade sobre figuras que estão fora de suas fronteiras. Isso é verdadeiro mesmo além das três figuras notáveis que disseram Baruch Hashem.

A Torá chama o contemporâneo de Avraham, Malkisedek, rei de Shalem, de um “Sacerdote do D'us Altíssimo.” Ele, também, abençoou a D'us: “Bendito seja Avram pelo D’us Altíssimo, Criador do céu e da terra.” E bendito seja o D'us Altíssimo que entregou seus inimigos em sua mão” (Bereshit 14:19-20).

Considere o fato de que nossa própria parashá, talvez a mais importante de todas as parshiyot porque contém os Dez Mandamentos e o evento mais importante em toda a história judaica, a aliança no Sinai, carrega o nome de um não-judeu. Ainda mais, imediatamente antes da revelação no Sinai, a Torá nos diz como foi Yitro o Sacerdote Midianita que ensinou a Moshê como delegar e organizar a liderança do povo. Essas são expressões notáveis de generosidade espiritual para aqueles fora do pacto.

Ou considere Tishrei, o mês mais sagrado do ano judaico. No primeiro dia de Rosh Hashaná, além de ler sobre o nascimento de Yitschak, lemos sobre como um anjo veio em auxílio de Hagar e Yishmael. “Qual é o problema, Hagar? Não tenha medo. D'us ouviu o menino chorando enquanto ele está ali. Levante o menino e pegue-o pela mão, pois Eu farei dele uma grande nação” (Bereshit 21:17-18).

Yishmael não estava destinado a ser um portador da aliança, mas foi resgatado e abençoado. Em Yom Kipur, à tarde, após termos passado a maior parte do dia jejuando e fazendo confissão, lemos o livro de Yoná, no qual descobrimos que o Profeta pronunciou meras cinco palavras hebraicas (“Em quarenta dias Nineve será destruída”) e então a população inteira – assírios, inimigos de Israel, - se arrependeu.

A tradição considera isso como o próprio modelo de arrependimento coletivo. Em Sucot lemos a profecia de Zecharyá de que nos dias vindouros todas as nações irão a Jerusalém para celebrar a festa da chuva (Zecharyá 14:16-19). Esses são três s exemplos impressionantes de universalismo. Eles não implicam que com o passar do tempo todos se converterão ao judaísmo. Mas sim, que na plenitude do tempo todos reconhecerão o único D'us, Criador e soberano do universo. Isso é algo muito diferente.

Essa ideia de que você pode ficar fora da fé e ainda ser reconhecido por pessoas dentro da fé como alguém que reconhece D'us, é realmente muito rara. Muito mais comum é a abordagem de uma verdade, de uma maneira. Quem quer que esteja fora desse caminho é ímpio, não salvo, o infiel, não redimido, uma classe inferior da humanidade.

Por que então o Judaísmo distingue entre a universalidade de D'us e a particularidade de nosso relacionamento com Ele? Resposta: porque isso nos ajuda a resolver o maior problema que a humanidade tem enfrentado desde os primeiros tempos. Como posso reconhecer a dignidade e a integridade do ‘outro’?

A História e a biologia inscreveram na mente humana a capacidade para o altruísmo para com as pessoas como nós, e de agressão para com pessoas que não são como nós. Nós somos bons, eles são maus. Somos inocentes, eles são culpados. Temos a verdade, eles têm a mentira. Temos D'us ao nosso lado, eles não. Muitos crimes de nação contra nação são devidos a essa propensão. É por isso que o Tanach ensina o contrário. Noach, Eliezer e Yitro foram pessoas de D'us sem serem membros de Israel. Até mesmo o povo de Nineve tornou-se um exemplo de como dar ouvidos a um Profeta e se arrepender. D'us abençoou Yishmael e também Yitschak. Essas são lições poderosas. É difícil pensar em um princípio mais poderoso para o Século 21.

Os grandes problemas que a humanidade enfrenta – mudanças climáticas, desigualdade econômica, guerra cibernética, inteligência artificial – são globais, mas nossas agências políticas mais eficazes são, na maioria, nacionais. Existe um descompasso entre nossos problemas e as soluções disponíveis. Precisamos encontrar uma maneira de combinar nossa humanidade universal com nossa particularidade cultural e religiosa.

É isso que a Torá está fazendo quando nos diz que Noach, Eliezer e Yitro disseram Baruch Hashem. Eles agradeceram a D'us, assim como nós, hoje, agradecemos a D'us. D'us é universal.

Portanto a humanidade, criada à Sua imagem, é universal. Mas a revelação e a aliança no Monte Sinai foram particulares. Eles pertencem à nossa história pessoal, não à história universal da humanidade. Acredito que essa habilidade de ser ao mesmo tempo particular em nossa identidade e universal em nosso compromisso com o futuro humano é uma das mensagens mais importantes que nós, como judeus, devemos entregar no Século 21. Somos diferentes, mas somos humanos. Portanto, vamos trabalhar juntos para resolver os problemas que só podem ser resolvidos se trabalharmos juntos.

. Fonte:

Por Rabino Jonathan Sacks z”l - O Rabino Lord Jonathan Sacks, já falecido, foi um líder religioso mundial, filósofo e autor de mais de 30 livros, que atuou como rabino-chefe do Reino Unido e da Commonwealth de 1991 a 2013. Você pode segui-lo nas mídias sociais @RabbiSacks ou através de seu site.

https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/5007976/jewish/Baruch-Hashem.htm

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